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Educação

Entidades e especialistas pedem a revogação da reforma do Ensino Médio

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Com lei sancionada em 2017 e implementada desde o ano passado, a reforma do Ensino Médio está sendo questionada por especialistas e entidades ligadas à educação desde que foi proposta. Esses questionamentos ganharam força nos últimos meses e, na semana passada, culminaram na abertura de uma consulta pública por parte do Ministério da Educação (MEC) para trazer diferentes pontos de vista sobre o assunto. Estudantes e professores marcaram para esta quarta-feira (15) atos pedindo a revogação do Novo Ensino Médio.

A mudança trouxe novas disciplinas e tornou uma parte do currículo flexível para os estudantes. Em 2022, a reforma passou a abranger as turmas de 1º ano do Ensino Médio. Nessa série, porém, o currículo ainda é semelhante ao antigo, apenas com a inclusão de três novas disciplinas: Projeto de Vida, Mundo do Trabalho e Cultura e Tecnologias Digitais.

Foi agora, em 2023, que a transformação principal começou: esses estudantes ingressaram no 2º ano, quando se inicia a parte flexível da carga horária. Nela, os alunos podem escolher entre duas ou mais áreas para aprofundarem seus conhecimentos. Na rede estadual do RS, por exemplo, há 28 trilhas de aprendizagem possíveis, e cada escola precisa oferecer ao menos duas.

Em junho do ano passado, uma carta aberta assinada por mais de 300 entidades ligadas à educação pedia a revogação do Novo Ensino Médio. No texto, é feita uma crítica sobre a interrupção, após o impeachment da então presidente Dilma Rousseff, de um debate que pretendia reformular essa etapa de ensino. Em 2016, a reforma educacional foi apresentada por meio de uma medida provisória, convertida em lei em 2017.

No Rio Grande do Sul, Ângela Chagas estuda a implementação da reforma na rede estadual gaúcha em seu doutorado em Educação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), além de integrar o Grupo de Estudos de Políticas Públicas para o Ensino Médio da instituição e o Observatório do Ensino Médio do RS.

— Os pesquisadores já apontavam, antes da reforma, uma série de problemas que estão se confirmando agora. É uma reforma imposta, sem diálogo com educadores e estudantes, que traz um estreitamento curricular e reforça as desigualdades educacionais que já existem — afirma Ângela.

Em seu estudo, a pesquisadora verificou que os alunos do 2º ano, hoje, chegam a ter 19 disciplinas, e que mesmo antes da reforma as 13 ministradas já eram consideradas um número excessivo.

— As disciplinas tradicionais estão com uma carga horária menor, e muitas, como Química, Física, Sociologia e História, só têm um período de 50 minutos por semana. Até que o professor chegue, faça a chamada e consiga iniciar a aula, ela já está acabando. Isso reforça a desigualdade educacional, porque, na prática, o acesso a esse conhecimento está sendo sonegado — observa a doutoranda.

Exemplo de São Paulo

Com a maior rede de Ensino Médio do Brasil, São Paulo foi o primeiro Estado a implementar a reforma em todas as escolas. Lá, quem tem se debruçado sobre o assunto é Fernando Cássio, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e integrante da Rede Escola Pública e Universidade, que assina a pesquisa.

A entidade buscou verificar se o Novo Ensino Médio de fato cumpria com suas três principais promessas: dar liberdade de escolha de parte do currículo ao aluno, ofertar uma qualificação profissional e ampliar a carga horária dos jovens, especialmente no turno da noite.

— Observamos que os estudantes, na verdade, não têm escolha, porque a oferta é sempre muito restrita. A maioria das escolas tem poucas salas e poucos professores, então é impossível conseguir fazer uma oferta minimamente representativa daquele cardápio enorme de trilhas oferecido. A maioria dos estudantes acaba não estudando o itinerário formativo que escolheu — pontua o docente.

A diversidade de oferta é menor em instituições localizadas em comunidades mais pobres, em municípios pequenos, em escolas de campo ou indígenas e naquelas que atendem adolescentes que cumprem medidas socioeducativas, por exemplo. Ainda assim, mesmo nas instituições maiores, a oferta de mais trilhas de aprendizagem se mostra inviável.

— Os diretores acabam preferindo preservar seu corpo docente, porque uma escola com todos os itinerários formativos se tornaria ingovernável. O Novo Ensino Médio desorganiza as escolas. Tem Estados em que há dificuldade até de se emitir um histórico escolar, com tantas variáveis — revela o pesquisador.

Outra promessa da reforma, a qualificação profissional dos estudantes também não foi comprovada. Nesse estudo, muito do que se encontrou em trilhas de aprendizagem ligadas à Educação Profissional foram cursos de curta duração sobre assuntos diversos, que vão desde formas de se apresentar no mercado de trabalho até vendas em redes sociais e noções de Excel.

— Há muitos modelos, mas todos são precários, porque a escola pública regular não vai ter laboratório de química para oferecer um técnico na área, por exemplo. Além disso, não foi explicado para o aluno que se ele quiser um diploma de curso técnico mesmo, vai ter que procurar uma complementação em um curso fora da escola depois — destaca Cássio.

Com relação à ampliação da carga horária entre estudantes do turno da noite, a pesquisa identificou que a expansão acontece por meio de aulas a distância, e não com a criação de maneiras para que o aluno consiga chegar antes à escola.

— Estamos tendo uma chancela de oferecer educação a distância no Ensino Médio, para estudantes sem computador, sem espaço e nem tempo em casa para estudar. Essa é uma política que, se estivesse preocupada com garantir o acesso, deveria oferecer auxílios para a permanência do aluno, o que acontece nas universidade públicas há anos — analisa o docente.

Consulta pública

Com a pressão pela revogação, o MEC abriu, na última quinta-feira (9), uma consulta pública sobre o Novo Ensino Médio. A proposta, segundo a pasta, é “abrir o diálogo com a sociedade civil, a comunidade escolar, os profissionais do magistério, as equipes técnicas dos sistemas de ensino, os estudantes, os pesquisadores e os especialistas do campo da educação para a coleta de subsídios para a tomada de decisão relacionados aos atos normativos” que regulamentam a reforma.

A consulta pública envolverá audiências públicas, oficinas de trabalho, seminários e pesquisas nacionais com estudantes, professores e gestores escolares sobre a experiência de implementação do modelo nas 27 unidades da federação. A consulta terá o prazo de duração de 90 dias, podendo ser prorrogado. Após seu término, a Secretaria de Articulação Intersetorial e com os Sistemas de Ensino terá 30 dias para elaborar um relatório final, a ser encaminhado ao ministro da Educação, Camilo Santana.

Procurado pela reportagem de GZH, o MEC relatou que “o assunto ainda precisa ser mais debatido antes de se tomar qualquer decisão”, e que a revogação da reforma, por ser prevista em lei, “só pode ser feita por meio de um projeto de lei encaminhado pela Presidência da República”.

Manifestação de estudantes e professores

Estão previstos para esta quarta-feira protestos em todo o país pedindo a revogação do Novo Ensino Médio. A iniciativa é comandada pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) e pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). Em Porto Alegre, uma aula pública está marcada para as 9h em frente ao Colégio Júlio de Castilhos, no bairro Farroupilha.

— Não tem como discutirmos a maneira de ensinar se não resolvermos problemas estruturais das escolas, que, muitas vezes, não têm nem laboratório de informática ou biblioteca, e sofrem com falta de professor. Além disso, os professores não têm formação para dar essas matérias novas — avalia o presidente da União Gaúcha dos Estudantes Secundaristas (Uges), Anderson Farias.

A entidade, que representa os alunos do Ensino Médio, entende que é importante que seja debatido um novo modelo de ensino, mas que a implementação não será possível com tantos problemas estruturais nas escolas públicas. Conforme Anderson, em visitas a instituições de ensino para convidar para o ato de quarta-feira, foi possível ver que muitas das novas disciplinas estão sem professores, porque não há quem as ministre.

— Em uma sala em que fomos, a galera estava desenhando, porque não tinha conteúdo. Em outra, três turmas saíram mais cedo porque não tinha professor de Mundo do Trabalho — conta o estudante.

O Cpers, sindicato que representa os professores da rede estadual de ensino, também estará presente na aula pública. Na opinião da presidente da entidade, Helenir Schürer, se, antes da reforma, não preparava bem o aluno para concorrer a uma vaga de trabalho, agora tampouco prepara bem para o vestibular ou para a vida, tanto pela carga horária das disciplinas como pela falta de preparação dos professores.

— Os professores ficam ansiosos, e isso gera o adoecimento da categoria. Quando tu é professor, tem que se sentir preparado para ir para a frente da sala de aula. Hoje, os professores vão preocupados, porque não têm clareza sobre o que devem fazer. Precisamos clarear isso — defende Helenir.

-GZH

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Educação

LIBERDADE: MG GARANTE ACESSO DE ALUNOS NÃO VACINADOS NA ESCOLA

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O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou um vídeo em suas redes sociais, neste domingo (4), onde aparece ao lado do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e o senador Cleitinho (Republicanos-MG), para firmar publicamente um compromisso do governo do estado de Minas com o ingresso de alunos nas escolas mesmo sem que estes tenham sido vacinados.

– Em Minas Gerais, garantimos com o governador Romeu Zema que nenhum aluno será impedido de estudar por conta de vacina. A educação e a liberdade agradecem – disse Nikolas na legenda do vídeo publicado na rede social X, antigo Twitter.

Zema declarou na gravação que “em Minas, todo aluno, independente de ter ou não vacinado, terá acesso às escolas”.

– Somos a favor da ciência, da vacina, mas a favor também da liberdade – destacou Cleitinho.

PLENO.NEWS

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Educação

SEM ACORDO NA CÂMARA, VOTAÇÃO DO PROJETO DO NOVO ENSINO MÉDIO É ADIADA PARA 2024

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A Câmara dos Deputados deve encerrar o ano de 2023 sem votar, em plenário, o projeto de lei enviado pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para alterar o formato do Novo Ensino Médio, instituído em 2017.

Segundo líderes ouvidos pela GloboNews e pela TV Globo, ainda há desacordo sobre pontos do projeto. Com isso, o tema só deve voltar à pauta em março de 2024, após o recesso legislativo e o carnaval.

O texto é relatado na Câmara pelo deputado Mendonça Filho (União-PE) – que era ministro da Educação no governo Michel Temer, quando o Novo Ensino Médio foi instituído.

Mendonça Filho chegou a prever que o texto seria votado neste mês. Nesta terça, disse que o adiamento atende a um pedido do atual ministro, Camilo Santana.Reproduzir vídeo

Disputa sobre as horas-aula

Entre os pontos de maior divergência, está a quantidade de horas-aula para as disciplinas obrigatórias.

No modelo atual, as 3 mil horas do ensino médio são divididas entre 1.800 horas de disciplinas obrigatórias e 1.200 horas optativas (nos itinerários formativos escolhidos por cada aluno).

O governo defende uma divisão diferente: 2.400 horas-aula para obrigatórias e 600 para itinerários optativos. No relatório, Mendonça propõe um “meio-termo”: 2.100 horas-aula e 900 horas-aula, respectivamente.

Mendonça afirmou à TV Globo que, com o adiamento da votação, deve conversar com secretários de educação até fevereiro para ampliar o debate sobre esse e outros pontos.

Em busca do recesso

Antes de entrar em férias, a Câmara e o Senado ainda pretendem votar nesta semana temas importantes como:

  • o projeto que regulamenta as apostas esportivas online
  • a medida provisória que muda regras sobre subvenção do ICMS e aumenta a arrecadação do governo
  • a Lei de Diretrizes Orçamentárias e o Orçamento de 2024.

O recesso parlamentar começa oficialmente no sábado (23). Depois, as atividades do Congresso serão retomadas em fevereiro – mas, se seguirem o ritmo usual, só devem “engrenar” a partir de março.

-g1

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Educação

Pesquisa mostra por que brasileiros deixam escola

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Quando deixou Araioses, no Maranhão, de ônibus e percorreu mais de 2 mil quilômetros até Brasília, em 2017, Maria de Fátima Santos, então com 18 anos de idade, sonhava engatar em uma profissão no comércio e voltar aos estudos. Aos 15 anos, Maria de Fátima tinha abandonado a escola, no quinto ano fundamental, para ajudar em casa.

Ela trabalhava no interior maranhense como diarista. Os livros não tinham espaço, nem eram prioridade na rotina da jovem. Hoje, em Brasília, a escola é só um sonho distante. Atualmente, perto dos 25 anos de idade, ela vive da coleta de objetos no lixo de condomínios para conseguir algum recurso, pagar o aluguel e mandar ao menos R$ 50 para a mãe, que ficou em Araioses.

Da escola, Maria de Fátima diz que sente falta das aulas de matemática. “Eu gostava e iria me ajudar na minha vida hoje.”

Deixar a escola em plena juventude não é raro no Brasil, conforme aponta uma pesquisa realizada pelo Sesi/Senai (Serviço Social da Indústria/Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), em parceria com o Instituto FSB Pesquisa. Depois dos 16 anos, apenas 15% estão em salas de aula.

”Os dados são fortes. Só 15% da população atualmente estuda. É claro que, na idade escolar, o número sobe para 53%”, afirmou o diretor-geral do Senai e diretor-superintendente do Sesi, Rafael Lucchesi.

Das pessoas que não estudam, 57% disseram que abandonaram a sala de aula porque não tinham condições. A necessidade de trabalhar é o principal motivo (47%) para interrupção dos estudos. 

“Um número muito alto de pessoas deixa de estudar por falta de interesse na escola que, muitas vezes, não tem elementos de atratividade para os jovens e certamente esses números se agravaram durante a pandemia”, afirmou Lucchesi.

O levantamento mostrou que apenas 38% das pessoas com mais de 16 anos de idade que atualmente não estudam alcançaram a escolaridade que gostariam.

Para 18% dos jovens de 16 a 24 anos, a razão para deixar de estudar é a gravidez ou o nascimento de uma criança. A evasão escolar por gravidez ou pela chegada de um filho é maior entre mulheres (13%), moradores do Nordeste (14%) e das capitais (14%) – o dobro da média nacional, de 7%.

Preparo

O levantamento revela também que a maioria dos jovens acima dos 16 anos de idade considera que a maioria dos que têm ensino médio ou ensino superior considera-se pouco preparada ou despreparada para o mercado de trabalho.

O levantamento foi realizado com uma amostra de 2.007 cidadãos com idade a partir de 16 anos, nas 27 unidades da federação. As entrevistas foram feitas entre 8 e 12 de dezembro do ano passado.

Entre as pessoas que responderam a pesquisa, 23% disseram que a alfabetização deveria ser prioridade para o governo, seguida pela instituição de creches (16%) e pela ênfase no ensino médio (15%).

A educação pública é vista como boa ou ótima por 30% da população, índice que sobe para 50% quando se fala de educação privada.

Entre os fatores para aumentar a qualidade, os mais citados são o aumento do salário dos professores, mais capacitação deles e melhores condições das escolas.

Avaliação

Pelo menos 23% das pessoas ouvidas na pesquisa avaliaram a educação pública como ruim ou péssima e só 30% a consideraram ótima ou boa. A educação privada é avaliada como boa ou ótima por 50% dos entrevistados.

Para Rafael, Lucchesi, a pesquisa traz uma dura reflexão sobre a necessidade de aumentar a qualidade da educação e também a atratividade da escola e, “como resultado geral, melhorar a produtividade das pessoas na sociedade”.

-AGÊNCIA BRASIL

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